quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Nosso Tio Elias



Não me canso de afirmar que a maior característica cultural do brasileiro é justamente não ter uma característica definida. A diversidade é nossa marca, somos um povo mestiço por excelência. Sou um exemplo vivo disso, nasci numa família surgida da união entre um pai descendente de mineiros, do sul das Minas Gerais, e uma mãe de origem italiana.

Era a coisa mais comum comermos, num domingo, uma tradicional massa italiana e depois termos doce de abóbora em calda com queijo mineiro na sobremesa. Ou então um belo Tutu de Feijão à mineira como prato principal e pastiera di grano duro no final.

A cozinha, como disse muito bem o antropólogo Darcy Ribeiro, é a característica cultural de maior persistência de uma etnia. 
O imigrante pode assimilar tudo da cultura do país para onde imigrou, mas teima em manter suas tradições culinárias e as repassa aos seus filhos como marca indelével. O fato é que, como aqui somos uma mistura de muitas raças, passadas algumas gerações, as famílias cozinham em suas panelas os típicos pratos dos quatro cantos do mundo.

Voltando à minha família, uma coisa curiosa nos aconteceu. Tia Celina, irmã de minha mãe, casou-se com um libanês, que por afinidade tornou-se nosso muito querido Tio Elias. Como ele tinha uma irmã que nunca se casando, como diz o povo: "ficou para Titia", a tomamos por nossa  Tia Jamile. E veio então a prima Latife, o Tio Zique, o primo Jamil e, quando vimos, esses nomes árabes já nos eram costumeiros, faziam parte da família, aliás, eram nossa família. 
Assimilamos essa cultura tornando-a um pouco nossa, não pelo sangue de nossas veias, mas pelo amor que sempre tivemos uns pelos outros.

Logicamente, aproveitando o parentesco, emprestamos desses tios, tias, primos e primas, suas receitas e tornamo-nos grandes apreciadores de sua cozinha. Tabule, Homus, Tahine, Esfiha, Tripa de Carneiro Recheada, Michui, Mijadra, Charutinhos e muitos outros quitutes, tornaram-se "cosa nostra". Uma cozinha marcante e maravilhosa que mudou nossos domingos, agora regados a Arak e cheirando a canela e outras especiarias do médio oriente. 
Na semana passada, nos deixou nosso Tio Elias. Certamente por ter um coração maior do que ele próprio, Deus o abençoou com uma vida longa e tranqüila. Por cem anos, Elias trouxe sempre alegria e deu muito amor a todos os seus amigos e principalmente à sua família, à qual tive a sorte de pertencer. Em sua homenagem publico aqui a receita de meu preferido prato libanês, que muitas vezes comi em sua casa, à sombra de jabuticabeiras, e usando como ingrediente as folhas da parreira de seu próprio quintal. Foram almoços inesquecíveis.
Salamaleque, Elias Yared.
Texto escrito em 27/11/2008

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